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Soajo em Noticiário

A finalidade deste blog é colocar factos relevantes de Soajo para que os Soajeiros e o público interessado possa dispor dos resultados de persistentes pesquisas que se fizeram em bibliotecas e arquivos. Artigos de Jorge Ferraz Lage

Soajo em Noticiário

A finalidade deste blog é colocar factos relevantes de Soajo para que os Soajeiros e o público interessado possa dispor dos resultados de persistentes pesquisas que se fizeram em bibliotecas e arquivos. Artigos de Jorge Ferraz Lage

LIMITES DE SOAJO, SOBRETUDO, COM CABANA MAIOR, NO MEZIO

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Este texto pretende dar alguma luz a quem ao serviço de Soajo tem de tomar decisões sobre assuntos que envolvem o território da freguesia de Soajo, presentemente, sobretudo, contribuir para clarificar a fronteira no Mezio.

Nele iremos referir, primeiramente, com brevidade as delimitações de Soajo e Ermelo segundo o tombo de Soajo de 1795. Nestes termos a demarcação começa: «na ponte de Ermelo próximo ao rio Lima (indo) ao pontilhão das tolas e dali ao porto do poulo e daí até o fojo, e daí ao marco do mezio». Por isto se conclui que a freguesia de Soajo não vai ao Gião, porquanto, o último troço, «vem do fojo ao marco do Mezio». Porém, neste marco, situado do lado sul da antiga via Soajo/Valdevez, terminam as fronteiras de Soajo com Ermelo. A partir deste sítio no sentido do norte começa a fronteira de Soajo a efectuar-se com C. Maior, grosso modo, pelo território onde existe, na actualidade, a estrada rodoviária em direcção à Travanca. Segundo o entendimento de algumas pessoas esta delimitação não é a correcta, todavia, é a que está a vigorar em termos “oficiais”! Para aceitar ou não este percurso, esta fronteira, terá de fundamentar-se a opção, recorrendo, acima de tudo, aos tombos das duas freguesias. Segundo o que consta no tombo de Cabana Maior de 1783, a fronteira com Soajo não se faz por «águas vertentes», nem tão pouco por «vertentes» a partir da «Portela do Amerio» (expressão que figura neste tombo e que se supõe ser Portela do Mezio) e, até, ao «marco chamado de Mosqueiros»! Mas onde fica este «marco chamado de Mosqueiros»? O marco do Mezio sabe-se onde fica. O outro ainda não se sabe onde se encontra e situa. Até que apareça, temos de recorrer a argumentos que sejam harmonizáveis com o que consta no tombo de Cabana Maior de 1782. Nesta perspectiva o tombo de 1782, informa-nos que do «marco chamado de Mosqueiros» sai-se por «águas vertentes» até ao «marco de Cima» e, daqui, também, se vai por «águas vertentes ao Cabeço de Guidão». Perante estes dizeres não pode o «marco chamado de Mosqueiros» situar-se em «Mosqueiros» de Soajo ou seja na zona da «Branda de pastoreio de Mosqueiros». Esta Branda fica, praticamente, dentro do âmbito da «Portela do Mezio», mas o argumento que aqui se deve evidenciar para clarificar, é que desta «Branda de Mosqueiros» é, fisicamente, impossível fazer uma divisão de Cabana Maior com Soajo por «águas vertentes», isto é, através da separação das águas das chuvas ou das águas da fusão das neves para cada um dos lados das duas freguesias! Na verdade, junto da Branda de Mosqueiros todas as águas correm, objectiva e claramente, numa só freguesia! Tanto no vizinho território a poente da Branda de Mosqueiros, como a nascente, só há escorrências para o lado sul, isto é, para o lado do ribeiro que passa perto de Vilar de Suente, ou seja, para o lado do rio Lima. Portanto, todas correm numa mesma freguesia! E esta é, sem sombra de dúvidas, a de Soajo! Aliás o correr das águas para sul já sucede desde o território que fica a noroeste desta Branda, ou seja desde a proximidade da Travanca! De facto desta zona próxima à Travanca é que se pode partir para «o marco de Cima» e, deste sítio, para o «Cabeço de Guidão» por «ÁGUAS VERTENTES»! Só neste percurso é que, naturalmente, se separaram as águas para dois lados, umas para o lado do rio Lima, outras para o lado do «rio Ázere», também chamado «rio Grande». Quer isto dizer que só nestas zonas se separaram as águas, de modo natural, para duas freguesias. Pretende a Junta de C. Maior, com base no seu tombo, fazer a ligação recorrendo a um critério em “linha recta” da soajeira Branda de Mosqueiros para o designado «marco de Cima». Mas, este procedimento, levaria a ter de seguir-se um trajecto, por uma só vertente da água, pois toa a água só escorre para o território de Soajo, o que manifestamente, colide com o que se diz no tombo de 1782, que só admite a separação natural por «águas vertentes», isto é umas para Soajo, outras para C. Maior! Ainda, também, deste «marco de Cima» se iria em linha recta para Guidão por uma só vertente, pois aqui a água só escorre para C. Maior! Então, neste último trajecto perderia C. Maior algum território para a freguesia de Soajo e, a separação pelo critério das «águas vertentes» não teria razão para constar no Tombo de C. Maior!

 Em face deste tombo de Cabana Maior, de 1782, temos de concluir que só na vizinhança da zona da Travanca, conforme nos indica o actual CAOP, «carta administrativa oficial de Portugal», é que virando à direita, à beira da Travanca, há condições para atingir os «morouços de Guidão» por «águas vertentes»! Como se sabe há vários nomes repetidos na serra de Soajo como por exemplo, Portela, Bragadela, Arieiro, Concieiro, Travanca, etc. A palavra mosqueiros, é também nome repetidamente empregue pelos pastores da serra de Soajo. É usual dizer-se que os gados estão nos “mosqueiros” quando se encontram em sítios bem ventilados e por isso mais propensos para se evitarem as moscas. É esta uma versão do termo mosqueiros, porém há outras. A palavra mosqueiros deriva de moscas e pode também significar local onde existem muitas moscas. Nos poulos onde pernoitam gados há sempre lugar para a abundância de bostas, o que determina a atracção de muitas moscas. Assim estamos perante um nome usado devido a várias circunstâncias. Por outro lado o termo Travanca significa barreira, obstáculo, impedimento de passagem. Ora é na zona de Travanca que nas cartas geográficas (mapas) se verifica, que o traçado do antigo concelho e freguesia de Soajo, faz uma viragem à direita bastante pronunciada em direcção a Guidão, pelo que a divisão das duas freguesias se harmoniza com a separação por «águas vertentes», em conformidade com o que consta no tombo de 1782! Também sabemos que houve um conflito, em tempos antigos, entre as populações de Cabana Maior e Soajo, por causa das águas da fonte das “sete bicas” que, não obstante se encontrar em território de Cabana Maior, na Travanca, só através de rego artificial de cerca de duzentos metros é que se atinge o território onde já fluem naturalmente as águas para irrigarem os terrenos agrícolas de Vilar de Suente, da freguesia de Soajo. É pouco crível que se o território de Soajo não fosse à zona das vizinhanças da Travanca houvesse motivos para irem buscar as águas à fonte das «sete bicas» uma vez que fica a quilómetros de distância da soajeira «Branda de Mosqueiros», esta situada na zona circundante da Portela do Mezio! Não é correcto, pois, quererem os poderes autárquicos de Cabana Maior “EMPURRAR” as fronteiras com a freguesia de Soajo, ao longo do amplo e extenso planalto da Portela do Mezio, para as estremas, onde as águas começam a escorrer nos declives, nas encostas, nas ladeiras,  isto é, nas vertentes, para o lado de Soajo! O Mezio é território relativamente plano, num alto, daí ser um planalto! Este tipo de divisória, nunca Soajo admitirá, porque o planalto é partilhado, não é dividido no Mezio por «vertentes», nem por «águas vertentes»! Aliás, o Tombo de C. Maior, é categórico pois não diz que da Portela do Mezio, para um sítio chamado  Mosqueiros, se recorre a um critério de divisão por “vertentes”,  e muito menos, por “águas vertentes”!  Acresce a tudo isto, o facto, também muito importante, de que a divisória de Soajo e C. Maior é feita com recurso «a MARCOS», como pode ler no tombo de Soajo de 1795! Este conteúdo foi extraído do «Foral da Terra e Concelho de Soajo», de 1514, na sua versão original que veio para o concelho de SOAJO! Este diploma tinha força de lei, mas não sabemos do seu paradeiro. Em 1758, o Mezio foi tido, também, como território serrano de Soajo, mas não apenas no começo das rampas do Mezio, voltadas para nascente, como desonestamente pretendiam os principais autarcas de C. Maior! Também existem, no Arquivo da Torre do Tombo, em Viana do Castelo, registos dos tabeliães de Soajo rezando que, junto ao(s) marco(s) do Mezio, em território do «DISTRITO DO CONCELHO DA VILA DE SOAJO» se fizeram escrituras, em que interveio o célebre juiz Manuel Sarramalho, autenticando-as com suas rubricas!

 Apesar de tudo isto ,só nos últimos quatro ou cinco meses, é que o actual autarca principal da freguesia de Cabana Maior, tomou conhecimento dos marcos através da informação prestada pelo Prof. António da Costa Amorim! Queriam todo o planalto só para a sua freguesia! O território de Soajo começaria, segundo os ambiciosos autarcas, no terreno inclinado, no rampeado, já em ladeira, como defendeu também, muito antes, o ex-autarca presidente Manuel Branco! Inacreditável, tanta incompetência e insensatez! Querem ignorar documentos preciosos! Querem seguir e recolher informações pela via de “trinta e um de boca” para decidir as fronteiras, de quem me afirmou ainda, em Setembro de 2016, que não sabia que havia marcos no Mezio porque nunca passou no sítio onde se encontram! Sempre de Bouça Donas ia e vinha de Soajo sem passar pelo caminho dos marcos do Mezio. Mas pretende que esta digna pessoa que, infelizmente, nem ler sabe, conforme costuma dizer, faça pedagogia perante os jovens de C. Maior,  sobre os limites da freguesia de C. Maior com outras freguesias! Desconhece o actual autarca que primeiro de tudo, estão os tombos, e outros documentos oficiais!

 Sobre possíveis mudanças dos nomes ao longo dos tempos, é que deve recorrer a outras fontes. Tem pertinência dizer que, por volta de 1880 ainda não deveria haver as brandas designadas por Travanca e Mosqueiros, pois as brandas de gado que existiam são claramente mencionadas na «Carta Geral do Reino». A folha resultante dos intensos e penosos trabalhos foi publicada na década de 1880 depois de funcionários da «Direcção Geral dos Trabalhos Geodésicos, Topográficos, Hidrográficos e Geológicos do Reino, procederem à triangulação feita já com base nos marcos geodésicos de 2ª ordem, e dos levantamentos topográficos e toponímicos da região da chamada serra de Soajo, antes já virada por batota de influências do poder arcuense, para “Peneda”, em vez de Pedrinho!

 Não me movem malquerenças a Cabana Maior, freguesia aliás onde tenho e tive muitos e bons familiares que, aliás, sempre tiverem relações muito afectuosas com toda a minha família. Para esta freguesia foi de Soajo casar o meu bisavô, Luís Gonçalves Lage, e nela nasceu o meu avô Manuel Gonçalves Lage que nela viveu no século XIX, vindo depois casar a Soajo. São razões da mesma natureza, resultantes de investigações, de interpretações aturadas de várias obras e documentos decisivos, que me levaram a escrever que a freguesia de Soajo, no actual mapa administrativo “oficial”, indevidamente, lhe atribui território no Gião! Mas este território não pertence a Soajo, mas sim a Ermelo!

  Vou-me repetir ao dizer que uma fronteira se faz por «águas vertentes» sempre que é possível estabelecer uma nítida separação das águas precipitadas da atmosfera para um lado e outro das freguesias que confrontam. Através da área geográfica denominada pelos Soajeiros desde tempos muito antigos por «Portela do Mezio» fazem-se as delimitações de Soajo com Cabana Maior até ao «marco de Mosqueiros» sem ser através de «águas vertentes» conforme se diz no tombo de Cabana Maior! Com isto quer dizer-se que dos «marcos divisórios do Mezio» (situados junto da área territorial da mamoa onde subjaz um sepulcro com milhares de anos, há alguns anos protegido com uma vedação, e presentemente também na proximidade da actual unidade hoteleira sobranceira a Vilar do Suente) até à zona do «marco de Mosqueiros» a separação de Soajo com Cabana Maior não se faz, portanto, com recurso às escorrências das águas para cada um dos lados destas duas freguesias! Por análise documental e dedução lógica, o referido «marco de Mosqueiros» não pode deixar de se situar na proximidade da área da actual Travanca/ Fonte das Setes Bicas. Este sítio de «Mosqueiros» não pode ser o da «Branda de Mosqueiros» [que ainda não existia quase cem anos depois da feitura do tombo de C. Maior de 1782] onde existem vários cortelhos (casotas de pastores) que o arqueólogo Jorge Dias fotografou como ficando na «Serra de Soajo»! Esta «branda de gado» denominada “Mosqueiros” usada pelo povo de Soajo, encontra-se numa área onde não é, objectivamente possível, fazer separação natural das águas para cada uma das respectivas encostas das duas freguesias! Pelo que consta no citado tombo de Cabana Maior de 1782 o «Mosqueiros» nele referido tem de ser o que fica junto do poulo, também com cortelhos de pastores, actualmente, em boa parte integrado no chamado parque de campismo da Travanca [também branda de gado inexistente à volta de 1880]. Neste antigo paul (“poulo”) concentravam-se ainda, na primeira metade do século XX, para pernoitar muito gado bovino que obviamente originava muita bosta. Nele existiam, portanto, condições ambientais para serem atraídas muitas moscas! Nesta zona de «Mosqueiros» diz o mencionado documento de inventariação de bens e demarcações de C. Maior, elaborado em 1782, que os limites fronteiriços com Soajo, se fazem, explícita e restritivamente, só, e só, através de «águas vertentes» a partir do «chamado marco de Mosqueiros»! Para o comprovar reproduzo do tombo da freguesia de C. Maior este excerto: «principiando a partir com a Igreja da Vila e Montaria de Soajo na dita Portela do Cavacadouro, continua águas vertentes à Portela do Amerio, e dali ao chamado marco de Mosqueiros, e vai por águas vertentes ao marco de Cima, e deste águas vertentes também ao cabeço de Guedom, e continua por águas vertentes também ao sítio chamado Cerqueiros Doural, daqui por vertentes à pedra da Rompelha e desta vai também por vertentes ao Coto ou cabeça do Outeiro Maior, e por outro nome a Fala onde finda a demarcação com Soajo. E no mesmo sítio principia de partir e limitar com a freguesia de São Salvador de Cabreiro e continua até os Merouços de Bragadela, e Chão da Portela e parte pela Lage Negra e vai ter às Covas do Mezio e ao Carvalho do Brealho onde acaba de partir com Cabreiro e Cistelo. No dito sítio do Carvalho do Brealho principia de partir esta freguesia com a de Gondoriz…». Desta transcrição irei a seguir fazer algumas análises que considero pertinentes e, também apresentar adequadas deduções e conclusões que, são indispensáveis, para se poderem determinar judiciosamente as fronteiras territoriais de Soajo com Cabana Maior:

 1ª – Diz-se no tombo de 1782 que, a confrontação de Soajo com C. Maior, se faz a partir da «Portela do Cavacadouro» (que é local altaneiro de passagem para Boímo) até à «Portela do Amezio» (que parece ser Portela do Mezio) com recurso a «águas vertentes». Repetimos, mais uma vez, que dizendo-se «águas vertentes» quer significar-se que há uma linha natural, separadora dos territórios de Soajo e Cabana Maior, através da escorrências das águas das chuvas e outras, que vertem, naturalmente, para cada um dos lados destas duas freguesias.

2ª – Porém, a partir da «Portela do Amezio», até ao «chamado marco de Mosqueiros», a separação de Cabana Maior com Soajo, já não se faz, e isto deve ser muito realçado, por «águas vertentes»! E isto sucede, uma vez que, dos antiquíssimos «marcos do Mezio» (situados no antigo caminho, em direcção a norte) na relativamente comprida Portela do Mezio, o território sendo de natureza planáltica, com boas rechãs, não permite divisória por «águas vertentes». E ainda por a sua largura e extensão serem relativamente consideráveis! Sabemos que existe sinalização divisória no planalto da Portela do Mezio pelo menos desde 1514! Mas no tombo de Cabana Maior de 1782, não só se deturpou, ao que parece, o nome da portela, como até se omitiu a existência destes marcos, o que é incompreensível! O primeiro tombo de Cabana Maior, incorporado no de São Cosme, nem sequer se refere à Portela do Mezio, nem aos seus marcos! O que se tem como certo é que o caminho por Vilar de Suente e Boímo era uma importante e antiquíssima via de ligação do concelho de Soajo com as várias povoações do concelho de «Vale do Vez», que não marginam o rio Lima!

3ª – A continuação da confrontação fronteiriça a partir do «marco de Mosqueiros» passou a ser feita, novamente, por «águas vertentes», portanto, por território onde fisicamente se separaram de um modo natural, as águas para cada um dos lados das duas freguesias! Esta separação natural de águas só é feita, nos limites aproximados da zona da Travanca, outrora ao que parece ser chamada Mosqueiros. De facto, deste sítio para o «marco de Cima» e, deste para «o cabeço de Guidom», são feitos os limites divisórios, por «águas vertentes», por haver nas encostas condições físicas de as águas se separem e escorrerem nos pendores para ambos os lados, umas para o lado de Soajo, outras para o lado de Cabana Maior! Existem neste percurso, portanto, possibilidades, para serem distribuídas natural e materialmente as águas das chuvas ou das neves para cada uma das vertentes das duas freguesias. Mas, partindo para Guidão, de um suposto marco localizado na soajeira «Branda de Mosqueiros» (situada na proximidade do actual gradeamento das estruturas da «Porta do Mezio») como o território só tem inclinação para um lado, a escorrência das águas é notória, objectiva e fisicamente feita em exclusivo para uma única freguesia – a de Soajo! Esta branda de gados de Mosqueiros estava genuinamente em território de Soajo e encontra-se muito afastada da branda de “Mosqueiros” da actual Travanca! Esta Travanca, nem sequer é nome exclusivo na serra de Soajo, o que até levou a casa florestal pelos extintos Serviços Florestais, a ser denominada por “Casa Florestal de Bouças Donas” dado que existia uma outra com o nome de “Casa Florestal da Travanca”! Há portanto vários Mosqueiros, várias Travancas…

4ª – Travanca é palavra que significa barreira, obstáculo, mas também discussão. Ora popularmente é bem conhecida a questão suscitada pela água da fonte das «sete bicas» situada na área geográfica da Travanca. Esta fonte apesar de estar a debitar água já numa encosta da freguesia de Cabana Maior (mas tida, erradamente, como de Gondoriz), é por rego artificial conduzida para o território de Soajo, numa distância de cerca de duzentos metros! Portanto, só quase na Travanca é que há a impossibilidade, em termos da carta administrativa, da incorporação no território de Soajo do paul (poulo) com cortelhos e do encaixado vale do «rio Grande» (Ázere)! Na proximidade da Travanca, ao que parece considerada antes do conflito sobre a água da «fonte das sete bicas», também «Mosqueiros», é que se consegue virar por «águas vertentes» no sentido do «marco de Cima» e de Guidão como atrás referimos.

5ª – Nunca, mas nunca, o «marco de Mosqueiros» se poderia e poderá localizar na chamada “Branda de Mosqueiros» situada em pleno território da freguesia de Soajo, porque deste local é manifestamente impossível fazer a divisão das freguesias por «águas vertentes» como também atrás foi dito! Portanto, só nas imediações do “portal da Travanca” (quiçá nome usado posteriormente ao tempo do conflito da água das «sete bicas») se pode sair do «marco chamado Mosqueiros» recorrendo ao critério de «águas vertentes»! Mosqueiros, sendo palavra que significa “lugar onde há muitas moscas” bem pode ter sido originado pelo facto de algumas cabanas (cortelhos) dos pastores, feitas depois, ou à volta de 1880, ser zona onde confluíam os gados para pernoitarem, provocando também a acumulação de bostas, geradoras de muitas moscas.

6ª Que «mosqueiros» é nome muito antigo sabe-se não pelo tombo de Soajo de 1795 (que recolheu dados do foral de Soajo, datado de 1514) que não o menciona, mas através do tombo velho de Cabana Maior, emitido em 1541, no qual consta que do «marco do Gião» (não o actual marco geodésico) vai a fronteira com Soajo (concelhio) desde esta marcação até «topar ao marco de Mosqueiros e daí vai ter «à cabeça de Guidão». Portanto, neste tombo não se esclarece se a fronteira se fazia por «águas vertentes» ou se era feita simplesmente por «vertentes» ou por outra forma de delimitar! Também, saliente-se mais uma vez que, neste tombo de 1541, não consta a fronteira através do Mezio, onde já havia marcos em 1514, algo difícil de entender! Porém, o tombo de Cabana de 1782 aborda as fronteiras entre Cabana Maior e Soajo através da «Portela do Amesio» (ao que parece ser a «Portela do Amezio», por semelhança gráfica do z manuscrito com um r)! Mas mesmo assim não se entende o uso, em 1782, de «Amezio» em vez de «Mezio», pois em 1758, também, claramente, é pelo abade de Soajo referido o marco do Mezio como início do território serrano da paróquia de Soajo. Também o eminente humanista e prelado Dom Frei Manuel do Cenáculo que foi, no século de 1700, o primeiro bispo de Beja e, muito mais tarde, arcebispo de Évora, relacionou as principais antas do Mezio, com Soajo, reconhecendo, portanto, o uso do termo Mezio! O Mezio, era pois nome relevante, daí não se entender os vários desacertos no Tombo de Cabana Maior! No entanto é bem notório que houve diferentes formas de delimitar as fronteiras de Cabana Maior com Soajo, através de sinalizações designadas como: «vertentes», «águas vertentes», pedra, marco, e morouços!  

7ª – Outro aspecto que também convém abordar é que na chamada «Branda de Mosqueiros», só de Soajo, não existe marco algum, mas umas simples cruzes numa padieira de um cortelho, que é sinalização bem diferente!

Era, pois, habitual, no século XVIII, distinguir as diferentes sinalizações nos tombos como se pode ver por exemplo no tombo de Gondoriz de 1708, onde constam as delimitações desta antiga paróquia com as de Cabana Maior e Cabreiro! Por outro lado o cortelho, com marcas na padieira, se fosse referência para apartar territórios, não teria entrada, provavelmente, por uma "suposta" área de Soajo, e a restante num hipotético território de Cabana Maior! Não é crível que fosse deste modo estabelecida a fronteira de freguesias. Ainda, convém dizer que este cortelho está bastante fora do caminho que vai para as «Chãs dos Terreiros» e «Entre-Outeiros», o que torna, ainda mais problemática, a sua aceitação, pois noutros sítios os marcos ladeiam os caminhos! Mas outra razão desfavorável para ser fronteira é que a escassos metros do cortelho para poente corre um pequeno regato (corga) que vai confluir noutro que também verte exclusivamente para Soajo, vindo do lado da Travanca. Outro aspecto a considerar é que estas marcas podem ter outras causas. Um exemplo, é uma marca, muito recente, por estar ainda totalmente esbranquiçada, que foi picada neste Julho de 2016, feita numa curvatura de um penedo com reentrância que dobra para um pequeno tecto de uma lapinha! Esta fica ao lado do caminho quase junto do riacho, mas algo para nascente deste e do lado direito do mesmo caminho para os “Terreiros”, antes de se atingir o sitio do caminho onde se pode começar a subir para ver o cortelho da padieira com cruzes, alcançado apenas depois de se sair para a esquerda e subindo cerca de oitenta metros. A amplitude do novo sulco no penedo do caminho tem cerca de três centímetros de largura! Quem foi que mandou fazer esta sinalização e com que objectivo?

Portanto, na posição em que está o cortelho, não sabemos qual a motivação desta marcação! Foi feita numa altura próxima da controvérsia com o actual presidente de junta, no evento anual do Mezio!

Quanto às cruzes, antigas ou não,  não sabemos se foram cravadas na padieira do cortelho da Branda pelo facto de haver na zona muitas faíscas de trovões, causando grandes temores. Numa padieira de um cortelho onde pernoitavam pastores poderia alguém implorar protecção divina. Na parte sobranceira a esta Branda há de facto muitos vestígios nos penedos, provocadas pelas faíscas dos fortes trovões, o que, pela proximidade, suscitariam enormes pavores! Neste sentido, cabe também perguntar onde usaram as cruzes nos outros sítios referidos no tombo de 1782, em que confinam com Soajo? As cruzes estão numa padieira de um cortelho da Branda de Mosqueiros, mas no tombo não referem nem cortelho, nem padieira, nem cruzes, mas apenas «MARCO CHAMADO DE MOSQUEIROS», que é, fisicamente, um objecto separador, bem diferente!

MUITO IMPORTANTE É REFERIR QUE A «CARTA GERAL DO REINO» QUE FOI MAIS TARDE DESIGNADA POR «CARTA COROGRÁFICA DE PORTUGAL» ELABORADA NA ESCALA DE 1:100 000 DIZ-NOS QUE POR VOLTA DE 1880 AINDA NÃO HAVIA A BRANDA DE GADO DE MOSQUEIROS, POIS NÃO É MENCIONADA, COMO ACONTECEU COM AS QUE JÁ EXISTIAM! Também se fala no tombo «marco de Cima», mas onde está o marco? É um “Penedo” ou uma “Pedra” , pois  até neste tombo escreveram «pedra da Rompelha»?!  No tombo vem só “marco”!

Os autarcas de Cabana Maior falam numa «Laje das Cruzes», no Gião! Mas no tombo desta última freguesia não se refere esta marcação no Gião, mas apenas  se refere, um simples “marco”!

 No tombo de Soajo consta, de facto, esta designação, mas não no Gião! Situa-se no caminho, junto do rio Lima, onde confinava o antigo concelho de Soajo com «Gração» do concelho de Valdevez! E a «LAJE DAS CRUZES» está lá, e é de facto uma laje, e com mais de 15 cruzes, pois o «MOSTEIRO DE ERMELO» foi «COUTO» demarcado por «pedrões» (ou padrões) e esteve integrado no Julgado de Soajo  desde os primórdios da fundação de Portugal, e como tal os frades teriam preferência por uma marcação deste tipo na principal via de acesso ao Mosteiro e a Soajo!

 No marco do Mezio, onde chegava Ermelo, fala-se num marco, e ele está no sítio compatível, porém, sem qualquer cruz! Também não se conhece nenhuma cruz na “Laje Negra” situada na zona dos Bicos tida no tombo de Cabana Maior como zona onde limita com Cabreiro. Mas o tombo de Cabreiro de 1795, não reconhece esta confrontação pela “Laje Negra” ou outra na zona dos “Alto dos Bicos”!

Muito insólito, muito anormal, muito incrível, é o tombo de Cabana Maior, de 1782!

Alertamos a Junta de Soajo e/ou a Comissão de Compartes dos Baldios para averiguarem quem colocou no caminho, junto à Branda de Mosqueiros, o novo sinal, e se houve ou não, intenção dolosa!

(continua)

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