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Soajo em Noticiário

A finalidade deste blog é colocar factos relevantes de Soajo para que os Soajeiros e o público interessado possa dispor dos resultados de persistentes pesquisas que se fizeram em bibliotecas e arquivos. Artigos de Jorge Ferraz Lage

Soajo em Noticiário

A finalidade deste blog é colocar factos relevantes de Soajo para que os Soajeiros e o público interessado possa dispor dos resultados de persistentes pesquisas que se fizeram em bibliotecas e arquivos. Artigos de Jorge Ferraz Lage

O CÃO SABUJO DA SERRA DE SOAJO, REFERIDO NO FORAL DO CONCELHO, FOI MAL INTERPRETADO PELO PADRE B. PINTOR, MAS O CASTREJO DA "TESE" DAS TRETAS E MENTIRAS ACEITOU, INFANTILMENTE, OS SEUS ERROS!

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Irei neste artigo demonstrar que alguns dos argumentos mesquinhos de um tal Rodrigues, natural de um lugar de Castro Laboreiro, expostos nas "cinquenta páginas de ridículas tretas e mentiras", resultaram em parte da influência do que escreveu o padre Bernardo Pintor, em 1981, na publicação «Por terras de Soajo», em que se abordou, também, o tema «São Bento do Cando».

Pintor, no que concerne aos cães sabujos de Soajo, começou por referir um documento do rei D. João I, emitido em 5 de Março de 1401, em que além do mais foi abordada a protecção aos cães sabujos de SOAJO.

 Pintor escreveu o que cito a seguir : «Pelo teor   do documento sabe-se que os fidalgos lhes tiravam os cães de guarda, chamados sabujos, e lhes causavam outros agravos.»

Mais disse Pintor : «Em 1514, a 7 de Outubro, D. Manuel I concedeu foral a Soajo (...). 

Nessa altura os moradores não pagavam ao Rei mais qualquer foro nem tributo além de «cinco sabujos feitos de monte, no tempo em que o Rei o reclamasse ou eles os quisessem pagar.»

Além destas considerações direi que o padre Pintor, continuou a sua escrita em jeito de interpretação e conclusão, sobre o envio dos cães, nestes termos: «Assim poderia suceder que anos houvesse em que nada pagassem por não lhes ser reclamado, pois de certo eles não se adiantariam a satisfazer.»

Mas o que foi escrito no FORAL DE SOAJO, de 1514?

Não foi o que escreveu  B. Pintor!

Transcrevo do foral o que nele se contem para que os moradores de SOAJO não pagassem impostos sobre os rendimentos gerados em cada ano, ao rei e à coroa real: «são obrigados de nos darem em cada um ano aos tempos que lhes mandarmos requerer ou eles os quiserem mandar cinco  sabujos feitos de monte sem outra nenhuma cousa.»

Comparando o que vem no foral e o que B. Pintor escreveu, verificamos que existem DIVERGÊNCIAS SUBSTANCIAIS!

Pintor não refere «em cada um ano» e, ainda, a expressão «são obrigados», constituindo estas omissões duas falhas graves, verdadeiramente deturpadoras do sentido da lei foralenga, no assunto que respeita aos «CÃES SABUJOS DE SOAJO», solar desta raça.

Na verdade, ao B. Pintor escrever, «no tempo em que o rei o reclamasse» não tratou com rigor, objectividade e clareza o que tinha de ser feito,  ANUALMENTE, ou seja, o que tinha de ser praticado «em cada um ano», num contexto de um ano económico e fiscal, período em que realmente se tomavam em conta, as rendas ou rendimentos gerados, para servirem de base para a liquidação dos impostos a pagar.

Ainda é preciso dizer que a substituição de palavra «REQUERER» por «RECLAMAR» não deixa de contribuir  para mais equivocar e gerar ambiguidade dado que, o termo mais apropriado é o está escrito no foral. De facto, o MOMTEIRO-MOR DO REINO, podia exigir ao CONCELHO E MONTARIA DE SOAJO, numa certa DATA, DIA E MÊS, DENTRO DE CADA ANO, mediante um requerimento, para  enviarem  os «CINCO SABUJOS» conforme conveniências CIRCUNSTANCIAIS.

As EXISTÊNCIAS, isto é, os "STOKS" de «TRINTA E CINCO SABUJOS», determinados pelo Regimento do Monteiro-mor do Reino, mesmo antes de 1605, podiam estar desfalcados, devido a doenças nos cães.

Os conhecimentos científicos e os outros meios para tratar animais tiveram progressos significativos no século XIX.

As indevidas interpretações dos conteúdos do Foral de Soajo em aspectos fundamentais podem configurar uma tentativa de B. Pintor ter desejado desvirtuar o que era mais relevante, ao usar uma linguagem e ideias AMBÍGUAS E EQUÍVOCAS, que suscitam INCERTEZAS, dúvidas e confusões.

Do foral de Soajo extrai-se facilmente que os moradores de Soajo, para beneficiarem da isenção de impostos directos sobre os rendimentos gerados num ano, tinham de SATISFAZER, OBRIGATORIAMENTE, TODOS OS ANOS, a entrega de «CINCO SABUJOS» aos REIS DE POORTUGAL.

Se Pintor, referiu, simplesmente, «tempo», pôde querer dizer, em qualquer altura, que não necessariamente o anual, sendo isto uma habilidade para fazer pairar na mente de quem lê o seu texto, incertezas, dúvidas e confusões...

A interpretação do texto do foral claramente nos diz que o envio dos «CINCO SABUJOS» era um acto obrigatório num tempo que foi devidamente determinado, e que, por tal, tinha de ser satisfeito rigorosa e verdadeiramente, EM CADA ANO!

O padre Bernardo Pintor para favorecer a sua terra natal, Castro Laboreiro, não deveria ter escrito na década de 1950, em periódico regional que, os «cinco cães sabujos» não eram enviados, exclusivamente, do município de Soajo para os reis, mas que seriam fundamentalmente destinados aos senhores donatários de municípios!

Presumiu que eram cães a MAIS para os reis, porque desconheceu a existência de 35 (TRINTA E CINCO) cães sabujos de SOAJO, afectos à supervisão do MONTEIRO-MOR DO REINO, que dispôs de INSTALAÇÕES, durante séculos,  sediadas no próprio PAÇO REAL...

 É verdade que Pintor, em 1981, não negou o envio dos «cinco sabujos» ao REI, mas habilidosamente, serviu-se da ESTRATÉGIA de não referir que eram enviados em cada ANO, como atrás foi dito. 

 

Em geral os escritos do Padre Bernardo Pintor são dignos de ser louvados, mas nalguns deles e em alguns aspectos, muito específicos e relevantes, não devem colocar-se  à altura de merecimentos.

Quando Pintor quis ser generoso com as localidades onde viveu e com as povoações dos seus familiares foi bastante parcial o que o levou a distorcer verdades essenciais, prejudicando muito injustamente outras terras, nomeadamente, o património imaterial da actual autarquia soajeira.

Não fossem algumas das suas afirmações plagiadas por outros autores e, então, os efeitos não teriam sido tão gravosos e destruidores de verdades fundamentais para a antiga «TERRA DE SOAJO».

O Reverendo Pe. Bernardo Pintor conheceu e publicou o foral de Soajo em linguagem do português do século XX. 

Em todos estes documentos aqui expostos leu que os «cinco cães sabujos» eram enviados, anualmente, do concelho de Soajo só para os REIS de Portugal.

Não obstante,  conhecer este comando foralengo, ousou escrever que os cães sabujos não eram entregues só aos REIS, mas também e sobretudo a SENHORES donatários dos concelhos, ideias lavradas no mesmo periódico onde publicou os conteúdos do foral.

Presumo que esta deturpação dos destinatários foi feita com intenção de justificar o que está publicado no tema Castro Laboreiro, inserto na «Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira» como já tive oportunidade de o referir, noutros artigos que publiquei.

Os desvios por indevidas considerações seriam, ao que  parece, feitas por Pintor  para ajudar a segurar as aldrabices do Prof. Manuel Fernandes Marques que alterou o habitat, o solar, e atribuiu documentos de Soajo multisseculares relativos ao cão sabujo do concelho de Soajo para a terra natal de Pintor, Castro Laboreiro!

Pintor também não corrigiu, nem abordou os erros da confusão da serra de Soajo com a Amarela. Antes quis engendrar em Portugal uns imaginados «montes de Laboreiro» como nome geral das montanhas e montes da serra de Soajo, sem indicar, supostamente, durante quanto tempo se referiram, e em que século esta  errada designação deixaria de ser usada, para ser falsamente substituída por Serra de Soajo, e não por "Peneda" como escreveu!    

Enfim, afirmações que não foram minimamente provadas para poderem ser aceites, no entanto vários autores admitiram-nas como certas, pelo que continuam a enganar muitos leitores... 

 O foral de SOAJO, de 1514, o único conhecido, aborda os «cinco sabujos» enviados «em cada UM ANO», o que significa, ANUALMENTE!

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Neste documento com elementos recolhidos para ser elaborado o foral de Soajo, muito objectiva e claramente se diz que os «CINCO SABUJOS» tinham de ser, OBRIGATORIAMENTE, enviados, pois está escrito, «são obrigados»,  ao REI, e em «CADA ANO»

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Na minuta para o foral de 1514 pode ler-se na escrita da época a referência aos «CINCO SABUJOS»...

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Em 1706 declarou-se na obra do Padre Carvalho da Costa o envio de «CINCO SABUJOS AO REI EM CADA ANO»...tal como consta na confirmação dos PRIVILÉGIOS DOS GUARDAS-MONTEIROS E NA DOS MORADORES DO CONCELHO DE SOAJO, de que só eram satisfeitos sob a condição do seu envio dos «CINCO SABUJOS EM TODOS OS ANOS»!

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A vigilância do território da MONTARIA REAL DE SOAJO,  nesta época de 1706, era feita pelo Monteiro-mor e mais doze MONTEIROS-MENORES, ditos, também «MONTEIROS-PEQUENOS», nos termos do REGIMENTO desta área da protecção e conservação da natureza.

O REGIMENTO DO MONTEIRO-MOR DO REINO DE PORTUGAL, publicado em 1605, continuava em vigência e nele se consagrava que os GUARDAS, MONTEIROS- PEQUENOS, eram obrigados a ter para fazerem o serviço de VIGIÂNCIA um CÃO SABUJO, pelo que em SOAJO os cães dos oficiais monteiros pelo menos teriam de  continuar a existir...e, ainda, mais CÃES SABUJOS para serem enviados «TODOS OS ANOS» ao REI...

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Estes diversos documentos foram conhecidos e usados pelo Padre Bernardo Pintor, pelo que nos causam muita estranheza, as deficientes interpretações e afirmações  sobre elementos ligados ao CÃO SABUJO DA SERRA DE SOAJO, que VIRARAM, INDEVIDAMENTE, para o mesmo CÃO, COM NOME DE CASTRO LABOREIRO,  o que fez com que passasse Castro Laboreiro, a terra famosa, mas também  à custa de confusões de patrimónios intangíveis de SOAJO, o que é muito lamentável...

                                 Serra de Soajo, 27 de Outubro de 2020

                                      Jorge Ferraz G. Lage